domingo, 4 de maio de 2014

A falta de sensibilidade dos evangélicos fundamentalistas
Fundamentalista é aquele que crê de forma doentia na doutrina que segue. O termo é utilizado de forma mais destacada para o sectarismo religioso, e não por acaso nasceu no seio de subgrupos evangélicos extremistas, que ao final do século XIX opunham-se a toda forma de racionalismo que contestasse a ortodoxia cristã.
Se você, ao ler essas linhas, lembrar-se de alguma experiência desagradável que já passou em razão da postura dogmática de defensores do extremismo religioso, pode ter certeza de que está com a quase totalidade das pessoas de bom senso, a não ser que tenha optado por se isolar com o intuito de se ver livre da desagradável convivência com esses indivíduos.
É pesaroso, mas eventos como o Iluminismo, a Revolução Burguesa, a difusão tanto do liberalismo como do marxismo, o advento da laicidade estatal, a abertura da Igreja Católica e outras instituições religiosas para uma espiritualidade mais racionalizada, e mesmo a vulgarização da Ciência não conseguiram fazer vencer a razão e eliminar do Ocidente o dogmatismo religioso tacanho, intolerante e anti-progressista. Ao contrário, o que vemos hoje é uma ascensão desse dogmatismo, a ponto de ameaçar conquistas históricas, como a igualdade de direito das mulheres, a liberdade religiosa e o Estado laico. Restrinjo-me ao Ocidente porque no lado oriental do planeta o laicismo é minoritário.
No Brasil, o pensamento fundamentalista é mais bem representado pelas igrejas neopentecostais do que por qualquer outro segmento, embora também se encontre no catolicismo ou outros grupos menores. Entre os novos reformados, contudo, é que se veem de forma mais acentuada todas as principais características desse movimento: o fanatismo, a intolerância, a inconveniência, a falta de ética, o desrespeito com espaço estatal.
Citar a péssima conduta dos líderes dessas igrejas é importante, mas penso que este curto texto não acrescentaria muito às boas análises de vários pensadores sobre tal questão. Pretendo aqui caminhar por outro viés, destacar o outro lado da mesma moeda: a postura de grande parte dos adeptos dessas religiões, os frequentadores que não possuem função sacerdotal, em relação àqueles que não se aliam a sua facção.
Os fundamentalistas, em especial os adeptos do neopentecostalismo, doutrinados ao extremo como são - o que não os exime de responsabilidade pelos seus atos de sectarismo, que por vezes chega ao vandalismo - veem-se obrigados a aproveitarem toda oportunidade que lhes surge para encaixar sua ladainha religiosa, mesmo sob o risco de serem inconvenientes ou ofensivos.  Essas ocasiões surgem, em geral, quando o alvo de sua pregação está em um momento de fragilidade psicológica, seja por problemas financeiros, de saúde, familiares ou quaisquer outros que provoquem instabilidade emocional.
O recurso utilizado é se aproveitar de tais situações com um discurso que atribui culpa ao indivíduo pelo mau momento que atravessa. Isso induz a vítima – e coloco essa palavra de forma calculada – a imaginar que se abandonar antigas convicções, sejam quais forem, e aderir ao séquito evangélico, seus problemas desaparecerão com em um passe mágica. Se for uma pessoa de espírito fraco, mais um cordeiro se associa ao rebanho do pastor.
Na perversa lógica dos chamados crentes, todo aquele que não se enquadra no movimento cristão está em erro, vive no pecado, e atrai para si e aos membros de sua família toda sorte de infortúnios. É como se deus, assim como na lenda bíblica de Jó, descarregasse sua metralhadora de desgraças, não para testar a fé, mas para trazer o pobre coitado para a crença. É obrigação, para os fieis dessa linha, arrancar essas pessoas da perdição e trazê-las para uma pretensa salvação – como se de outra coisa além da ignorância, defeito esse que eles possuem em mais alto grau - o ser humano devesse ser salvo. Nesses diálogos mais do que impertinentes, que muitas vezes se iniciam com um aceno de preocupação pelos maus momentos em que passa seu interlocutor e finalizam com a doutrinação, que desde o início era o real objetivo do religioso, desaparece qualquer respeito em relação à condição emocional do outro. Por essa ótica enviesada e insensível, não há problema algum em ser agressivo, ferir convicções íntimas, magoar ou ser irritante ou inconveniente: o importante é arrebanhar mais um prosélito.
Os dogmáticos cristãos, com destaque para os neopentecostais, não compreendem como alguém pode descrer de seu deus sanguinário, não tenha seu profeta como o deus encarnado ou mesmo como melhor que outros que se destacaram na tradição religiosa, duvide das recompensas eternas e seu entediante céu ou das penas irremissíveis com seu absurdo (e inexistente) inferno, siga outra forma de espiritualidade e, pior de tudo, conteste a autoridade moral de seus $antos líderes. Esses livres pensadores, contudo, existem, não se convencem pela tática do medo e não desejam ser convertidos a porcaria nenhuma.
Nos últimos dias, fui alvo da investida de um iludido acrítico, outrora um amigo, hoje um quase estranho cuja distância prefiro manter. É impressionante, a meu ver, que um cientista social diplomado em uma conceituada Universidade Pública se considere “eleito” por crer em dogmas absurdos, e queira arrastar mais pessoas para suas crenças infantis. Creio ser importante mencionar que sua vida não está a mil maravilhas: ele passa por sérios problemas familiares, mas não culpo suas convicções religiosas por isso, pois poderia acontecer a qualquer um – inclusive aos neopentecostelhos.
Para ele e para todos aqueles que se unem ao seu ideal, faço um apelo: não insistam comigo. Não sei aonde minha forma de pensar me levará, mas sei que caminho não quero seguir. Assim como não tenho direito de violentar vossas consciências, eximam-se de tentar fazê-lo comigo.

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